24/08/2020

SOBRE NORMAL PEOPLE

 

Já faz algum tempo que terminei de assistir Normal People e queria conversar por aqui sobre, mas algo me impedia. Não era preguiça, era processamento. O passeio entre os anseios de Connell (Paul Mescal) e Marianne (Daisy Edgar Jones) requer tempo de assimilação; eles ficam um tempo em você depois de testemunhar os "tropeços" de uma relação. E não é por culpa do Paul.


Foto: Divulgação.


A jornada inicia-se no último ano do Colégio e se estende até o começo da vida adulta. Ela tão deslocada, ele jogador de rugby popular; na faculdade, ele tão deslocado e ela toda cool popular. A virada de "jogo" não é à toa. Tudo é minuciosamente retratado com voz, postura, silêncio e olhares. É um trabalho rico que possui tantas camadas, que mesmo excedendo um pouco no tom melancólico, é poesia pura.  


Fotos: Reprodução


Sem pressa alguma e com lapsos preciosos na linha de tempo, a série vai nos levando para dentro daquelas pessoas tão comuns e, por isso, tão profundas e conectáveis. O trabalho de personagem é belíssimo e a entrega dos atores em todas as cenas, admirável. Não à toa, Paul foi indicado ao Emmy de melhor ator e só por um episódio, na sala de um terapeuta, já lhe valeria todos os prêmios do mundo. A química entre os dois é palpável e rara. E isso não é lá muito normal, comum. 


Foto: Divulgação


Baseada num best seller, a minissérie fez inesperado sucesso no Reino Unido, batendo recordes de audiência, tanto que já pensam em fazer uma segunda temporada, mesmo o projeto tendo sido desenhado como começo, meio e fim. Não necessariamente nessa ordem.

Não é uma história de amor de desencontros, mesmo sendo uma repleta deles. Não é comédia romântica, mesmo tendo seus momentos cômicos. É drama puro e verdadeiro. É sobre as entrelinhas, florescer da maturidade e compreensão do que é comunicação. Também trata de outros assuntos sérios, além do epicentro do afeto dos dois, com muita propriedade. 


Fotos: Reprodução #crush


Ainda sobre desencontros, a série nos guia no sentido contrário, é sobre como a presença gradativa de um, na vida do outro, modifica, perante seus passos e sonhos, na presença ou na ausência. Sério, poderíamos conversar sobre isso por horas a fios. Entendeu a demora de postar sobre? E relendo esse texto, reparo um pouco a desconexão dos parágrafos. Aqui é culpa total deles. 

Ele, com uma família presente e querida. Ela, com uma mãe negligente. Ele, sempre com dificuldades financeiras. Ela não. Isso é só dois dos inúmeros exemplos do que Connell é para Marianne e vice-versa. Um Eduardo e Mônica com contexto introvertido. E muito mais rico, obviamente. 


Feito com extrema sensibilidade e bom gosto, principalmente nas cenas de sexo, vale reparar que todas elas falam muito sobre o estado emocional do casal naquele específico momento. E nenhuma delas é gratuita. Sim, há nudez total de ambos, sem qualquer propósito apelativo. Aqui a nudez, mesmo que sob "névoas", é totalmente da alma. E por mais brega que isso soe, é a mais pura verdade. 

Normal People é muito especial. 


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