06/05/2020

SOBRE 'VOCÊ NEM IMAGINA'


A primeira vez que eu tive meu coração partido não foi por uma garota, mas por um cara. Um cara hétero branco do centro dos Estados Unidos. Se você selecionasse esse cara da multidão e dissesse "esse garoto será seu melhor amigo", jamais acreditaria. Mas, às vezes você conhece uma pessoa e, por algum motivo, a "estranheza" de vocês funciona junto. Ele me ajudou a me aceitar como gay em um momento da vida em que nós não conhecíamos nenhum gay – e nós dois cambaleamos no estranho campo de "tentar arranjar uma garota". E ele conseguiu, para nossa alegria (pelo menos um de nós não iria morrer sozinho). E, então... desastre! A namorada dele estava preocupada com nossa amizade, apesar de saber que eu era lésbica. Então, devagar e inevitavelmente, o cálculo delicado da nossa amizade foi corroído. Eu me lembro de uma noite chuvosa, nós dois chorando no carro, eu dizendo que não entendia. Se algo fosse acontecer entre a gente, já não teria acontecido? E ele respondeu "ela não acha que a gente vá transar, ela se sente ameaçada pela nossa amizade". Eu sempre vou me lembrar disso. Alice Wu, o coração e mente por trás do filme Você nem imagina.

Foto: Divulgação Netflix

Talvez ela explicar sobre a inspiração de seu novo trabalho, torna tudo mais precioso, se é que houvesse necessidade de comprovar suas inúmeras qualidades. O filme não é sobre essa arrebentação de sua vida pessoal mas, sim sobre aproximação e distanciamento. Não é sobre amor, é sobre amizade, é sobre reconhecer no outro, um pedaço afetuoso de você. É como você se nota, reagindo às novidades do coração. Por isso que a história não poderia se passar em outra fase, a escolar, pré faculdade onde o imediato é definitivo. Tampouco é sobre descobrir-se gay.  É sobre ser. Ponto.




E nessa amizade, entre cartinhas escritas à mão (elas voltaram à moda nos filmes né?) e SMS inspirados, quase reconhecemos no filme, uma canção. Sua narrativa parece ter sido composta como tal. Garota desengonçada ajuda garoto desengonçado a conquistar o coração de uma garota popular porém inerte. Já vimos esse plot inúmeras vezes em comédias românticas certo? Talvez até músicas do Belle and Sebastian sobre ouvimos.  

O diferencial aqui são os personagens, as conduções e principalmente, as palavras. Por isso a comparação. Mesmo com frases de efeito, o filme que lembra um pouco o sucesso Para todos os garotos que já amei..., passa longe de ser primo de tal e livretinho guia com legendas motivacionais para posts no Instagram. Tudo aqui é mais cool e especial. 

Foto: Divulgação Netflix

"Se eu soubesse o que era amor, citaria a mim mesmo. 
Gravidade é reação da matéria á solidão. 
Sua risada é tipo um oceano de pensamentos. 
O amor não é encontrar sua metade, é tentar, se esforçar e falhar. 
Romance é hambúrguer, batata frita e milkshake. 
E talvez mais batatas"

Parece forçar a barra esse papinho filosófico barato? Ou trechos de músicas aleatórias (olha o tópico novamente). Esses são apenas alguns exemplos dos diálogos que soam naturais saídos das bocas dos personagens de Alice. E você vai se apaixonar por todos - até pelo atleta gostoso bobão.

Ellie Chu (Leah Lewis) e Paul Munsky (Daniel Diemer) é o melhor casal, não casal de muito tempo do cinema (no caso, streaming era) - tipo a metade da metade, sem ser o meio. Você nem imagina o quão especial é esse filme. Ou sim.

Um comentário: