08/05/2020

SOBRE A SÉRIE 'HOLLYWOOD': FATOS, QUALIDADES E DEVANEIOS


Ryan Murphy é uma locomotiva criativa desenfreada e ele não para de produzir coisas e mais coisas. Às vezes ele acerta, noutras perde o fio da meada. Com o acordo milionário que o produtor assinou com a Netflix, tendo total liberdade nas mãos, mais projetos lindos virão principalmente voltados para o público LGBTQ+. Sua presença na posição máxima de poder é inspiradora, quase uma fábula. E nesse tom de fábula que ele quis reescrever a chamada Era de Ouro de Hollywood e é assim, num quase conto de fadas, que devemos embarcar na sua Hollywood


Foto: Divulgação Netflix

A minissérie conta a história de aspirantes, sonhadores, gays enrustidos e predadores sexuais da Indústria. A reparação logo vem na produção do filme Meg/Peg que será estrelado pela primeira vez por uma atriz negra (Laura Harrier) e lançado por uma mulher na chefia de um grande estúdio. Além de ter nos créditos, um roteirista homossexual e negro, a estória de amor no filme é interracial, o par romântico é com o novato, ex militar e ex prostituto, Jack Costello, interpretado aqui pelo péssimo porém belíssimo ator David Corenswet.

David Corenswet - Reprodução: Instagram

Todos esses fatores culminavam em escândalo no final dos anos 40. Obviamente retaliações como protestos, ameaças de morte e boicotes ao estúdio surgem. Mas, todo esse mal é resolvido de maneira muito simples e preguiçosa pelo roteiro. Aliás, simplista é o tom da série. Passes de mágica pululam o tempo todo. Ninguém parece de fato correr algum tipo de risco, só um pobre repórter que é vítima do agenciador Henry Wilson (Jim Parsons, brilhante), tentando publicar uma fofoca sobre um de seus atores contratados. Um simples exemplo é como resolvem o drama do orçamento estourado da produção. Ridículo.

Foto: Divulgação Jake Picking/ David Corenswet
P.S. Nos anos 40, as roupas de ginástica!!!

E todos os problemas são meio que resolvidos com essa facilidade e nada é aprofundado do jeito que deveria. Os episódios iniciais são promissores pois são calcados na realidade de um país extremamente patriarcal, racista, homofóbico e hipócrita. As festas de sexo, o prostíbulo fantasiado de posto de gasolina, a xenobofia, o ageismo, etc. Assuntos sérios que deveriam ser tratados como tais, são arrematados como tópicos de programa de fofoca de fim de tarde. E nesse processo, alguns personagens são porcamente desenvolvidos.

O filme é lançado e todo preconceito do mundo acaba com seu sucesso.

Entendo que a proposta de Ryan e seus idealizadores tenha sido entregar um conto de fadas com gostinho de retratação histórica. Como se pudéssemos reescrever os fatos, abraçando a diversidade, tendo Hollywood como papel direto e influenciador na sociedade. Quentin Tarantino fez isso brilhantemente em Era uma vez... em Hollywood, dentro de sua proposta violenta; Ryan não consegue sair da superfície, mesmo que mais bem intencionado que Tarantino.

Foto: Divulgação Netflix

Entretanto esse desgosto é agridoce pois Hollywood é extremamente viciante. Seja no seu design de produção deslumbrante ou na sua narrativa de novela, somos fisgados por seu universo. A gente fala mal, aponta defeitos, nota furos e mesmo assim, torce pelos personagens e olha que não temos muito com eles - o roteiro não consegue fazer essa ligação.

O desenvolvimento dos casais é pífio e não há muita química entre eles. Darren Criss e Laura Harrier parecem duas migas brincando de dar beijo na boca numa noite de vinho barato; David Corenswet e Sam Weaving ligam uma chavinha agora vocês se amam e causam tanta comoção como dois robôs defeituosos; Jake Picking (incrível no papel de Rock Hudson) com Jeremy Pope (o roteirista de Meg) fazem o único casal com alguma verdade. Love is love, manas!

Jake Picking/ Rock Hudson - Foto: Reprodução

Descrita como uma declaração de amor à Hollywood, o jeito é entrar na onda escapista, sem esperar muita habilidade nessa conversão ou poesia nessa carta. Não incomoda os finais felizes da série, incomoda como chegamos até eles. A produção é luxuosa, a proposta é maravilhosa mas o resultado é um belo de um "quase". O episódio final parece que foi dirigido e editado às pressas. O ápice é frouxo. 




Agora vamos ao que interessa, como Hollywood usa nome de pessoas reais daquele período, fiz uma breve pesquisa e relato o que é verdade e fantasia. E ATENÇÃO! O texto, a partir de agora, pode conter SPOILERS.



ROCK HUDSON E HENRY WILSON
O ator e o agente existiram. Rock mudou de nome a mando de Henry e era esse rapaz tímido, atrapalhado, vindo de uma pequena cidade. Henry vivia assediando seus contratados e com Rock não foi diferente. Como aconteceu no teste de Meg, o astro também levou 38 takes para uma única fala no seu primeiro papel e era digno de pena no começo de sua carreira. Péssimo, péssimo ator. Ele escondeu sua homossexualidade até 1985, no qual faleceu devido complicações da AIDS, sendo uma das primeiras celebridades a morrer da doença. Teve casamento de fachada e tornou-se um dos maiores galãs do cinema. Obviamente Rock nunca passeou num tapete vermelho de mãos dadas com outro boy como mostra a série.

Foto: Divulgação Netflix

Henry é retratado de maneira bem fiel. Ele era podre mesmo e tinha contato direto com a Máfia que utilizava para seus fins. Todos seus clientes eram bissexuais ou gays enrustidos, na maioria ex militares. Quase todos eram obrigados a fazer sexo com ele já na assinatura do contrato. Ao contrário do que mostra a série, não houve qualquer rendição, ele morreu na miséria, endividado e solitário, esquecido num asilo para figurões do entretenimento. Tinha sérios com problemas com drogas, álcool e vício em sexo. Era um bosta e morreu como tal.


ACE STUDIO E MULHER TODA PODEROSA
Ace Studio nunca existiu mas é claramente inspirado na Paramount Pictures, tanto que seu portão é igual. E sim, os figurantes ficavam ali na porta esperando ser ou não chamados. A primeira mulher a controlar um grande estúdio foi Sherry Lansing, que virou chefe da Fox em 1980, mais de 30 anos depois do que é mostrado na minissérie.

Reprodução

AS "FESTINHAS" DE GEORGE CUKOR
Elas rolavam sim mas nunca na mesma noite após um jantar chiquetoso para grandes nomes do cinema. A pool party com os peladões não chegava a ser uma grande orgia mas lá as pessoas que viviam no armário eram livres para amar, trepar, beijar, viver. Não rolava muito álcool e zero drogas nessas festinhas (George era careta), era mais um grande encontro de yags num belo sábado à tarde.

Foto: Divulgação Netflix

POSTO DE GASOLINA "TROCA DE ÓLEO FELIZ"
Sim, ele existiu e se chamava Richfield Oil. O serviço extra do posto era basicamente esquematizar programas para clientes famosos e ao contrário do que mostra a série, o dono do posto, Scotty Bowers nunca ficava com porcentagem do valor do programa. A equipe de profissionais era formada por amigos dele e ex militares que estavam falidos por causa da Guerra. Também tinha o tal do trailer que servia de quartinho do amor, o mesmo ficou lá por acaso estacionado, a pedido de um amigo seu e fez muita gente famosa feliz usando o cantinho secreto. Tem um livro sobre tudo isso, escrito por ele chamado Full Service: My Adventures in Hollywood and the Secret Sex Lives of the Stars (Serviço Completo: Minhas Aventuras em Hollywood e a Vida Sexual Secreta das Estrelas). Ele morreu recentemente.


A NOITE DO OSCAR
Em Hollywood muitas bandeiras importantes são levantadas nessa noite quando negros, orientais e yags ganham a estatueta dourada. Infelizmente nada daquilo aconteceu, assim como nunca existiu Meg.

A primeira mulher negra a ganhar o Oscar de melhor atriz foi Halle Berry por A Última Ceia em 2002. O primeiro roteirista negro foi Jordan Peele por Corra! em 2018. A primeira mulher executiva a ganhar pelo prêmio de melhor filme foi em 1974 com Um Golpe de Mestre; em 1957 a atriz de ascendência oriental Miyoshi Umeki levou o prêmio de coadjuvante por Sayonara.

Foto: Reprodução Instagram

Realmente a atriz Hattie McDaniel, interpretada aqui por Queen Latifah, ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por ...E o Vento Levou em 1940 e teve que sentar num outro setor isolado do teatro da cerimônia que não permitia entrada de negros na plateia.

Os outros personagens principais são fictícios ou inspirados em alguém. Jack Costello (David Corenswet) é inspirado em Marlon Brando, Montgomery Clift e James Dean - não se sabe se algum deles trabalhou no tal posto. O diretor Raymond (Darren Criss) é inspirado em Steven Spielberg. Camille Washington (Laura Harrier) é inspirada nas atrizes Lena Horne e Dorothy Dandridge. Dick Samuels (Joe Mantello) é inspirado no produtor Irving Thalberg e por aí vai.




Hollywood foi projetada como minissérie, ou seja, não vai ter uma segunda temporada, pelo menos não com os mesmos personagens numa continuação direta. Devido o estrondoso sucesso da série, Ryan Murphy está cogitando criar tipo um American Horror Story, sempre com histórias e personagens diferentes mas dentro do mesmo tema, dissecar e celebrar Hollywood.


Um comentário:

  1. Que post incrível! Amei a série, daria nota 8. Os babados, tudo!

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